Empresas de ônibus criam setor de achados e perdidos

Os 8749 ônibus que circulam na cidade do Rio de Janeiro realizam, em média, 97.700.000 viagens por mês. O número equivale à soma das populações de Argentina, Chile, Bolívia e Peru. Durante as viagens é imensa a quantidade de carteiras, documentos, bolsas, malas e telefones celulares deixados dentro dos veículos. Os itens citados são os mais esquecidos pelos passageiros nos coletivos.

O Grupo Redentor, do Consórcio Transcarioca, recebe uma média de 100 ligações por mês para o setor de achados e perdidos. O número é baixo se comparado à média de 200 objetos encontrados no mesmo período. Segundo os funcionários, é comum encontrar sacolas de supermercado com compras na parte debaixo dos bancos. Os alimentos não perecíveis são doados para instituições. A empresa criou um catálogo dos telefones dos clientes com o objetivo de auxiliá-los na busca. O psicólogo Mario Mattos explica que já recebeu diversos tipos de objetos no RH da empresa. “Chegam das coisas mais simples até carteiras com R$500, R$700. As mochilas com marmitas e roupas, além dos celulares, são encontrados quase todo dia. Também recebemos com muita frequência notebooks, óculos e documentos”, afirma Mario Mattos.

O psicólogo trabalha na empresa há nove anos e coleciona histórias interessantes de objetos esquecidos dentro dos ônibus. “Uma mulher veio com a família do nordeste para o Rio e praticamente trouxe a mudança no ônibus. Tinha de tudo! O marido dela ainda estava com os braços quebrados e eles pegaram a linha 343, Praça XV – Barra da Tijuca (via Rio das Pedras). A dificuldade era grande para carregar tanta coisa e eles acabaram largando para trás uma caixa com uma televisão usada dentro. Depois de um mês, essa mulher ligou aqui para a empresa e conseguiu resgatar a televisão”, conta Mario Mattos.

Na empresa Real, do Consórcio Intersul, os “esquecidinhos” devem procurar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC). A assistente Mariana Félix relata que carteiras, documentos pessoais e chaves compõem a lista dos objetos mais encontrados. “Quando o documento tem alguma referência a gente faz contato com o dono. Quando não tem, guardamos e esperamos a pessoa procurar. Se ninguém liga ou vem até aqui, entregamos os documentos nos Correios”, afirma Mariana.

Cerca de 80 a 90 objetos são encaminhados ao SAC da empresa por mês. Cartões de banco, Bilhete Único, carteiras de trabalho e de motorista completam a lista dos objetos normalmente encontrados pelo setor que faz a limpeza dos coletivos quando eles retornam para a garagem. “O material mais estranho que já chegou aqui foi a bengala de um cego. O despachante nos entregou e disse que não sabia como o homem tinha descido do ônibus”, conta Mariana.”

Na Viação Nossa Senhora de Lourdes, do Consórcio Internorte, o procedimento com os objetos esquecidos é diferente. Não há um espaço destinado somente aos achados e perdidos. Tudo é encaminhado para a portaria e um funcionário liga para o proprietário, se houver maneira de fazer contato. Quando não há referências ou o dono não vai buscar o material, eles são encaminhados aos Correios, que também mantêm um serviço de achados e perdidos.

O aposentado Antônio Porfírio Menezes, de 83 anos, pode ser considerado um homem de sorte. No dia 29 de setembro, ele perdeu a carteira com todo o dinheiro e grande parte de seus documentos em um ônibus da linha 621 (Penha – Saens Peña). Quando deu falta do objeto entrou em desespero. Ao chegar em casa, recebeu um telefonema do coordenador da Viação Lourdes, Luciano Nascimento, dizendo que a carteira havia sido encontrada dentro de um dos veículos da empresa. “Eu não tinha como ir buscar os documentos. Fiquei surpreso quando o funcionário se dispôs a vir aqui em casa me entregar a carteira. Fiz questão de ligar para a Viação Lourdes e elogiar a atitude deles. O tempo todo fiquei imaginando o trabalho imenso que teria para tirar os documentos novamente”, afirmou o aposentado.

As sombrinhas e os guarda-chuvas contrariam as expectativas como parte dos objetos pouco encontrados pelos funcionários das empresas. “As pessoas não esquecem muito esse tipo de coisa. O problema é que é muito difícil devolver porque normalmente eles não têm identificação”, diz Mariana Félix.

O usuário que perdeu algum objeto dentro dos ônibus pode entrar em contato com a Central de Relacionamento com o Cliente da Fetranspor (CRC) pelo 0800 886 1000.

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